Considerado como ponto de referencia as suas formas actuais, poderíamos convencionar, pura e simplesmente, que a raça que pretendemos estudar é bastante recente. Com efeito, a criação do boxer, dentro dos padrões actuais, pode ter a sua origem fixada por volta do final do século XIX. A sua aparição, ainda em forma primitiva, data de uns cinquenta anos antes, quando um grupo de cinófilos Bávaros procurou obter, por selecção, um novo tipo de cão que respondesse a determinados requisitos, teóricos que eles tinham como ideal da sua experiência genética. A selecção utilizou um antigo dogue (maciço, pesado, tosco de formas e, poderíamos mesmo dizer, geneticamente desafortunado) chamado bullenbeisser (morde-touros) e o conhecido bulldog inglês, de características perfeitamente determinadas.
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Essa experiência deve ter-se demonstrado bastante difícil, se o que os seus realizadores estavam buscando era um produto que combinasse, como características raciais evidentes, a coragem, o equilíbrio, o poderio e a inteligência, necessariamente unidos a uma aparência estética pelo menos aceitável. O material reprodutor utilizado possuía, verdadeiramente, muitas facetas realmente boas para transmitir à descendência, mas a apresentava também alguns traços hereditários não tão desejáveis, começando pelo próprio aspecto geral, derivado da sua conformação externa, absolutamente carente de elegância.
Embora seja verdade que o primeiros boxers eram diferentes dos actuais – bastante mais feios, se queremos falar sobre o seu aspecto geral – a selecção posterior conseguiu influir tão profundamente nas características da raça que, com o transcorrer dos anos, obteve-se um cão de defesa que, além da sua inegável força, coragem, inteligência e apego ao dono, apresenta já uma notável beleza física, na qual a harmonia de forma aparece clara e em alto grau. Se acrescentamos a tudo isso um carácter alegre e um extraordinário equilíbrio psíquico, podemos verificar que possuímos um animal de características verdadeiramente excepcionais que é, sem sombra de dúvida, o conjunto do boxer. Por esse motivo, mais que por qualquer moda ou preferência da época, é que ele soube cativar as simpatias de todo o mundo.
No entanto, antes de qualquer outra coisa, deveremos conhecer o bullenbeisser , um dos ramos dos quais procede o boxer. A primeira questão que nos surge é a da origem dessa raça. Deve-se, por razões científicas bastante lógicas, afastar a hipótese de uma origem autóctone desse cão. Alguns autores citam a possibilidade de que tivesse origem no norte da Europa, embora o discutido naturalista Hilzheimer mantenha o ponto de vista de que a região de nascimento da raça fosse o norte dos Alpes, ou seja, o centro-sul do continente. A primeira versão, mais apegada à tipologia geral dos dogues, possui mais difusão, embora a segunda tenha uma grande força em alguns sectores especializados. De qualquer modo, do seu lugar de origem (Europa, sem dúvida) o grupo inicial se teria propagado, sob formas já um pouco diversificadas, para o sul do continente, estendendo-se depois por toda a Europa, até o mediterrâneo.
Outra hipótese bastante provável é a de que o bullenbeisser descendesse dos antigos mastins, que tinham chegado à Alemanha através da Inglaterra, para onde teriam sido levados pelos fenícios (que, alguns milénios antes de Cristo, já navegavam por todos os mares conhecidos para realizar o comércio que os tornou famosos e marcou a sua principal característica na história). Essa hipótese é reforçada pelo facto de que se admite que os Studer e os Strebel, raças alemãs similares, fazem parte de uma descendência europeia continental dos mastins.
Esse desdobramento dos mastins teria alcançado as costas mediterrâneas, ainda com os fenícios, e imediatamente depois as costas gaulesas e britânicas, estendendo-se até ao Mar do Norte. Nessas viagens, os clássicos navegantes devem ter levado consigo, como mercadorias raras e muito desejadas, grandes mastins procedentes da Assíria e da Índia que, por seu turno, descendiam já dos mastins tibetanos (cuja forma selvagem pode ser reconstituída por comparação a um grande lobo da Índia). São perfeitamente conhecidas as relações comerciais que os fenícios mantiveram com os grandes reinos assírios já que, contemporaneamente ao tráfico de escravos, desenvolvia-se nessa época o comércio de animais. Desse modo, é perfeitamente admissível que o material de formação de algumas das grandes raças caninas actuais da Europa possa ter chegado ao ocidente através desse processo comercial. O Dr. Keller aceita esta arriscada teoria, devido ao Dr. Tschudy, da Basileia, numa carta que dirigiu a este último nos seguintes termos: «no que diz respeito à questão dos mastins, minha hipótese que os fenícios devem ter comerciado esse tipo de cães com a França e a Britânia tem muitas possibilidades de acerto. Além disso, a teoria de que o sangue dos mastins se difundiu posteriormente, partindo da Inglaterra, por toda a Alemanha setentrional para formar o canis familiaris decumanus , parece-me igualmente uma concepção exacta…».
Sob essa forma (ou seja, semelhante ao fóssil do canis familiaris decumanus) deveria ser visto, de acordo com essa teoria, o progenitor do bullenbeisser . Mas isso não ainda directamente, mas sim através daqueles cães medievais alemães denominados Saupacker ou cães de presa utilizados para ursos e touros. A propósito, antigas leis germânicas citam os grandes cães da região com o nome de Canis Ursoritus (de ursos), Canis Porcatoris (de javalis) e outros cães Vacam et taurum prendit (provavelmente o bullenbeisser ) difundidos estes últimos em muitas regiões germânicas. Pinturas e esculturas, por outro lado, mostram-nos tipos particulares da Idade Média e nelas há dados importantes para a identificação da procedência do nosso cão: por exemplo, sobre o túmulo de Liebsfrau Kirche em Arnstadt, existe a escultura de um cão, uma espécie de dogue que pode perfeitamente ser considerado como um antecessor do boxer, deitado aos pés de Isabel de Hollenstein, mulher do conde Gunter XXV de Schwarztug, falecido em 1398.
Os escultores de lousas fúnebres daquela época costumavam expressar simbolicamente a fidelidade por meio de um ou mais cães deitados na extremidade dos monumentos das mulheres casadas de alta linhagem. Acredita-se que, por volta do ano 1600, realizaram-se algumas dessas esculturas, nas quais figuravam cães conhecidos como bullenbeisser, considerado como exemplo dos antecessores do tipo actual.
Os bullenbeisser apresentam-se em tamanhos variáveis. Havia cães belicosos e agressivos, bastante empregados, em pontos esparsos da Alemanha e da Holanda, para a caça do javali e do cervo (também se diz que participavam nas caças o urso), sendo empregados igualmente para a guarda de rebanhos e de manadas, ou seja, como cães pastores.
Existe um tipo de formas pequenas, chamado «cão-de-touro de Brabant», muito solicitado desde a Idade Média pela sua maior mobilidade e rapidez. Desse iria descender o boxer. Gaston de Wael afirma, no jornal Chasse et pêche (1921), que, especialmente em Brabant (região germânica da Bélgica), é conhecido há muito tempo um cão, variedade do bullenbeisser, chamado precisamente, brabantsche bullen-bjiters e capaz de lutar contra touros ferozes; esses cães se difundiram grandemente, em especial entre os condutores de bois e manadas. No mesmo artigo de De Wael é citado ainda um certo senhor John Ebriendiger, que teria vivido no final do século XVI e deixado alguns retratos pintados onde se representava o cão-de-touro de Brabant, muito semelhante ao nosso actual boxer, segundo De Wael, portanto, seria temerário afirmar que o país de origem do boxer foi a Alemanha, já que essa região belga poderia perfeitamente assumir esse papel histórico ; mesmo admitindo (ainda segundo o autor citado) a origem dos boxers alemães, sua origem primeira estaria fatalmente em antepassados de Brabant, criados desde tempos remotos de modo bastante especial. Considerando as origens, as dimensões e muitas características (mesmo sendo análoga a tipologia fundamentalmente de dogue que une o boxer aos pequenos cães de Brabant), optamos por deixar de lado esta última teoria, já que na formação das raças caninas temos assistido a uniões bastante estranhas que, no final, acabaram dando resultados efectivamente brilhantes.
Ao contrário, consideraremos com especial atenção o velho cão-de-touro de Brabant de que falamos antes (o maior). Tapeçarias flamengas dos séculos XVI e XVII representam cães muito semelhantes aos boxers no momento de empreenderem a caça aos cervos e também ao javali.
O debut do boxer como cão de exposição ocorreu na cidade bávara de Munique. Rowland Johns, no seu manual Our Friend, The Boxer (cuja edição italiana eu tive o prazer de revisar), escreve: «a grande moda de criar cães difundindo-se a partir de Inglaterra a todo o continente; logo, os astuciosos Bávaros perceberam a possibilidade de obter um grande êxito comercial com o seu cão, se conseguissem melhora-lo através de cruzamento e selecção. Conheciam tudo a respeito do bulldog inglês, inclusive que, na Grã-Bretanha, ele tinha sido eximido em 1835 da tarefa, antes da sua, de combater ursos e touros, e decidiram-se então a introduzir na raça algumas das suas características. Naquela época, o bulldog era bastante semelhante ao moderno bulldog inglês, muito mais pesado do que ele.
«Ainda pode ter acontecido que, em 1870, se realizassem cruzamentos desse tipo na tentativa, não inteiramente frustada, de melhorar o seu aspecto, sobretudo para obter uma cabeça quadrada e um corpo mais ágil. No entanto, a primeira demonstração concreta de um progresso realmente efectivo foi lograda, segundo Von Otto, em 1890, quando um boxer de Munique foi cruzado com um bulldog de manchas brancas. O falecido Sr. Philip Stockmann confirmou que daquele cruzamento resultaram exemplares com o queixo fortemente desenvolvido, a orelha erecta e a ossatura bastante mais forte. Depois disso seguiu-se o cruzamento entre cães não consanguíneos, com o objectivo de eliminar o excesso de cores esbranquiçadas e obter a coloração pretendida, ou seja, semelhante à do tigre ou à do leão, completando assim o seu aspecto de força; além disso, os novos cruzamentos pretendiam reduzir a pesadez do animal e obter para ele uma linha mais ágil». Neste ponto devemos advertir que, com efeito, o bullenbeisser do tipo de Brabant já era um cão com as cores do leão ou do tigre, de aspecto pouco elegante, construção muito robusta e maciça e possuindo uma grande cabeça e uma notável dentadura.
Todos esses cruzamentos efectuados entre o bullenbeisser e os bulldog deram lugar, posteriormente, a muitas polémicas sobre a autêntica descendência do boxer. A esse respeito, vale a pena citar um excelente estudo aparecido no nº 3 (Julho de 1976) da bem cuidada revista de cinofilia 4 Zampe , onde se relatam coisas a respeito do Boxer Club. O artigo não está assinado, mas transparece claramente o brilhante estilo da feliz pena de Mario Perricone, o director do jornal. Eis aqui o texto a que nos referimos:
«Alemães e Ingleses disputam, já há muito tempo, a origem do boxer. Os primeiros, com documentos na mão, não hesitam um instante em situar o seu nascimento na Alemanha, realizado mediante o acasalamento de um velho tipo de mastim alemão, o bullenbeisser, com o conhecido bulldog. Os segundos, embora dando crédito aos documentos tão orgulhosamente exibidos pelos seus colegas cinófilos alemães, respondem que, apesar de ter nascido efectivamente na Baviera, o boxer não é uma raça realmente alemã. O facto de que o bulldog seja inteiramente inglês parece estar inteiramente fora de qualquer dúvida; do mesmo modo, ninguém jamais poderá esquecer que foram precisamente os ingleses sempre os maiores exportadores de cães de todo o mundo. E, dentro dessa linha de raciocínio, de que cão – se não de um cão inglês – teria sido seleccionado o Bullenbeisser alemão? Seus antecessores são aqueles cães belicosos que Júlio César encontrou na Britânia e levou consigo para a Europa romana. Com efeito, muitos concluem afirmando, com toda a fleuma cabível, que esses cães de tamanho médio, com o focinho emburrado e pouco proeminente, com o pelo curto e uma musculatura formidável foram chamados pelo seu nome actual – boxer – precisamente em virtude do significado que essa palavra possui em inglês, ou seja, lutadores (ou melhor, os belicosos de Júlio César).
«Philip Stockmann, que foi o mais importante dos criadores alemães de boxer, para não alimentar discussões e pretensões que ele considerava simplesmente absurdas, costumava responder que teria o mesmo efeito chamar esse cães com um nome alemão, por exemplo, Kampfer (lutador), já que foneticamente este seria tão feio como o já conhecido boxer».
No entanto, a polémica não acabará facilmente e, pelo contrário, tenderá a aumentar cada vez que o boxer seja mais conhecido pelo mundo inteiro, mostrando um dos vários momentos de fortuna de que está repleta a sua breve mas fascinante história, uma coisa sim é absolutamente certa: estamos diante de uma raça que, indiscutivelmente, foi criada para lutar e morder. Eis aqui o motivo pelo qual dizemos que o homem que tem a seu lado um boxer possui um atleta, no sentido helénico da palavra.
«Por tudo isso é lógico que dessa raça nascida da justa posição de características de cães que tinham a função precípua de mordedores (o que é muito distinto de mordisqueiros) não se espere outra coisa que isso: que cada boxer se transforme num defensor enérgico e muito equilibrado…»
E prossegue dizendo Rowland Johns: «em 1894, o produto melhorado encontrou adeptos convictos em Robert, Konig e Hopper, cujos esforços para popularizar a raça não tiveram, no entanto, êxito imediato, visto que na exposição dos São Bernardo, realizada em Munique em 1895, houve apenas uma inscrição na categoria: um cão que respondia ao nome de Flocki, filho de Tom e de Alt Scheckin. Foi, na verdade, uma estreia muito modesta; porém, graças aos êxitos alcançados por Flocki, em pouco tempo a raça conquistou a preferência dos especialistas, até ao extremo de que, já em 1896, foi fundado o primeiro Boxer Club.
«Três meses depois, teve lugar uma exposição reservada exclusivamente aos boxers, na qual Konig funcionava como juiz; revelou-se então a necessidade de eliminar todas aquelas características do bulldog que pudessem contribuir para desvalorizar o quadro do conjunto ideal, que já estava bastante claro na mente daqueles pioneiros da raça».
«O primeiro registo genealógico para o boxer foi fundado em 1904, ano em que também apareceu um jornal especializado, com o nome de Boxer Blatter ».
Durante a primeira Guerra Mundial não foram apenas os Schäferhunde (pastores alemães) que se empregaram para realizar missões bélicas auxiliares, participando delas também numerosos boxers, que pagaram um expressivo tributo de sangue, tal como outras raças, nos campos de batalha (doberman, airedale, schnauzer, etc.). O boxer apareceu nos Estados Unidos uns dez anos antes da guerra; o primeiro exemplar a ser inscrito no registo genealógico do American Kennel Club foi Arnulf Graudenz. Especialmente depois da segunda Guerra Mundial, num crescimento constante e paulatino, a criação dessa raça na América do Norte alcançou um expressivo desenvolvimento, do mesmo modo que ocorria também na Inglaterra e em diversos países do Mundo, principalmente na América Latina. No Brasil, nessa época, o boxer começou a tornar-se popular e aumentou consideravelmente o número dos seus criadores. A verdadeira progenitora do boxer foi Meta von der Passage, que produziu um grande número de filhotes bastante homogéneos (antes não se tinha alcançado tal homogeneidade) e foi a mãe do grande Hugo von Pfalzgau, por sua vez pai do campeão Rolf von Vogelsberg, que engendrou por seu turno o famoso campeão Rolf Walhall. Este último reprodutor, que tinha herdado as qualidades dos seus antecedentes, foi o responsável pelo último e definitivo impulso que se imprimiu à criação da raça e da qual ela estava realmente necessitada depois da Primeira Guerra Mundial. É uma realidade o facto e que a cuidadíssima selecção, apoiada no método e na perseverança, conduziu a criação da raça, durante os últimos decénios, a resultados esplêndidos, demonstrando que se poderia desenvolver um dos mais belos cães de defesa e de companhia; neste produto de selecção, a harmonia das formas não está divorciada dos dotes preciosos de inteligência e de carácter, fazendo do boxer um cão ideal e levando-o à posição que ele actualmente ocupa, entre os primeiros lugares no cômputo entre os cães mais difundidos em todo o mundo. Em muitas regiões o boxer é também utilizado, com bons resultados, como cão policia e até mesmo como guia para cegos. Na Itália, a situação actual da raça é indiscutivelmente brilhante, graças aos esforços dos criadores e da incessante actuação do Boxer Club de Itália, hoje em dia mais forte sólido e prestigioso do que nunca.
Nos últimos decénios (repletos de realidades palpáveis e não isentos de polémicas, talvez não inteiramente apagadas na actualidade, dirigidas a algumas características do tipo ideal da raça) muitos são os boxers que alcançam o nível de campeões; por esse motivo não vamos citá-los, com medo de omitir alguns deles. Falamos desses cães no entanto, fundamentando-mos numa fonte séria e absolutamente segura, representada pelo querido e pranteado amigo Dr. Pier Ângelo Pesce, que foi juiz durante mais de cinquenta anos, além de fecundo escritor, e a quem recordamos com grande afecto. Suas conclusões e seu estímulo não estão jamais fora de lugar e, mesmo quando costumamos seguir o provérbio de que ninguém é profeta na sua pátria, poderemos dizer com segurança que Pesce o foi, pelo menos em certa medida. Foi ele que escreveu na Rassegna Cinofila (nº 9, ano 1975): «na Itália, o aparecimento do boxer ocorreu com um pouco de atraso com respeito à época da definitiva fixação da raça. Pode-se mesmo dizer que, antes de 1930, não existiam na Itália exemplares de boxer dignos de menção, quanto a número e quanto a qualidade. Lembro bem que nas nossas exposições sempre aparecia algum boxer e, a esse respeito, sinto não poder consultar as minhas anotações e catálogos ou mesmo outros juízes (uma grande parte dos apontamentos que eu possuía se dispersou durante a última guerra). Recordo apenas que, em 1927, houve um em Asti e, do mesmo modo, em 1929 julgamos um casal em Luca, onde Danick, de Alberto Apollini, ganhou o CAC. Em Novara, em 1930, havia uma dezena deles, alguns dos quais pertenciam ao engenheiro Odone Mazza.
«A partir de 1930, no entanto, as coisas mudaram de figura e a raça começou a estar representada por exemplares qualitativos melhores. Como recorda Mario Confalonieri na sua obra Il Boxer , precisamente daquele ano Piero Scanziani adquiriu em Munique Esta von der Blütenau, que depois seria qualificada de excelente nas exposições caninas gerais e, no ano seguinte, deu início à produção dos primeiros verdadeiros campeões da raça. Alguns criadores começaram, desse modo, a interessar-se seriamente pelo boxer; entre estes encontravam-se o Conde Douglas Scotti, a senhora Ivonne Morterra e outros muitos e importantes cinófilos. Apesar de tudo, a princípio, todos os exemplares realmente bons, que recolhiam todos os louros das exposições e concursos, eram sempre cães importados».
O primeiro campeão nascido e criado em Itália foi Raoul di Ponente, do conde Scotti, que consegui essa glória em 1938, quando a criação de boxer na Itália começou a assumir maiores proporções, logo depois freiadas mas não destruídas inteiramente pela sangrenta Segunda Guerra Mundial. Na verdade, segundo algumas versões, a guerra foi até mesmo um dos mais importantes factores de desenvolvimento da raça boxer na península, apesar das imensas dificuldades materiais que sofria o país.
Os resultados desse fervor aparecem claramente nas exposições realizadas logo no início do pós-guerra, onde se revelou um material canino que antes muito provavelmente jamais se teria suspeitado existir em forma tão completa; nessa época diversas raças acusaram um notável incremento quantitativo e qualitativo, entre as quais o boxer destacou em importância. Se quisermos expor exemplos e cifras a esse respeito, poderemos recordar que em Roma, cidade que estava então invadida por uma verdadeira febre cinófila, na exposição desse ano (o autor se refere a 1947), inscreveram-se 45 boxers, seguindo os quase trinta que tinham concorrido no ano anterior; em Milão, apresentaram-se nesses anos 41 e 55, respectivamente; em Asti, 26 e 23, nesse ano foram expostos 24 em Verona, 25 em Alexandria, 20 em Turim, 16 em Módena, 22 em S. Pellegrino, 10 em Ostiglia, etc. na exposição do campeonato de Roma, que nesse ano se acumulava com o campeonato da Itália (para cães que possuíssem o necessário PDC), foram indicados Crea de Virmar, do comendador Confalonieri e Arno von Turnellen, de Piero Scanziani. No ano anterior houve já duas indicações em Milão: Coo de Virmar (Confalonieri) e Harry de Dargo, pertencente a Ladilao Verres. Na última exposição do campeonato de Monza apareceram alguns outros, ou seja, segundo a ordem do catálogo, Duccia di val di Senio, da senhora Emília Prizzi Locatelli, Ely di Val di Senio, da senhora Mirina e do doutor Pericle Mola, Lar delle Fontanelle, do doutor Palmiro Mola, Este di val di Senio, do doutor Mario Fratta, e, finalmente Valda de Virmar, do comendador Mario Confalonieri.
Que sorte estará reservada à raça boxer na Itália num futuro muito próximo? Não somos profetas, mas com a ajuda do fervor e da vontade que animam os valentes, convencidos e apaixonados criadores da raça, assim como com as simpatias conquistadas por este cão entre um grande e expressivo número de criadores e de cinófilos em geral, acreditamos que é possível aventurar uma previsão inteiramente cor-de-rosa. Apesar disso, prevemos também que surgirá a necessidade de recorrer a algumas importações vindas do outro lado dos Alpes para poder manter a criação na altura que ela já alcançou até ao momento actual e inclusive, melhorá-la com vista à produção de um grande número de exemplares de categoria, capazes de satisfazer às exigências dos mais entusiastas cinófilos. (tudo isso se realizou de uma forma verdadeiramente notável, como nos expõe o doutor Mario Perricone no seu brilhante artigo que em seguida transcrevemos.)
«Acreditamos que este ponto constitui a base da posição que se deverá adoptar sempre que a criação do boxer na Itália o exija, no futuro. Portanto, o segredo do sucesso reside integralmente nisso e está confiado às mãos, à mente e ao espírito do próprio criador. Se os criadores são capazes de manter a criação do boxer à altura que deve ser mantida, pode-se ter a segurança de que aos amantes mais apaixonados da raça continuarão sempre surgindo, o que assegura a afirmação cada vez mais sólida desse sugestivo animal; no entanto, se a criação se desenvolve unicamente par manter os padrões médios já conquistados, necessariamente aparecerão exemplares de qualidade inferior, desembocando finalmente na degeneração e na decadência irremediável de toda a raça; tudo isso causará a sua progressiva impopularidade, em virtude principalmente da difusão de um grande número de exemplares sem qualquer valor e incapazes, portanto, de despertar o orgulho dos seus proprietários.
(isso, afortunadamente, não ocorreu.)»
Já na actualidade parecem mostrar-se os sintomas de uma certa saturação do mercado do boxer. Poderia tratar-se de um fenómeno conjuntural e transitório; no entanto, deve-se estar atento para observar com todos os detalhes, a suas causas e os seus efeitos. Não se deve esquecer a hipótese de que, ao manifestar-se um particular e inusitado interesse do público por essa raça, isso tenha dado lugar ao aparecimento de numerosos criadores improvisados e sem a devida preparação técnica, levados muitas vezes pela esperança de lucros rápidos e fáceis, criando de uma forma desordenada e sem aplicar os necessários critérios zootécnicos que devem estar sempre presentes na criação de uma raça sujeita a perigosas variações, como é o caso do boxer.
Quando se fazem improvisações com a criação, põe-se fatalmente em perigo a raça, visto que, com isso, visa-se exclusivamente a perspectiva das vantagens imediatas, mesmo quando estas sejam passageiras e efémeras e não sejam capazes de projectar para o futuro o espírito e as ambições do criador. O Carpe Diem, ou seja, o espírito de não deixar escapar o momento propício, sem preocupar-se com as consequências, não é, não pode ser em nenhum caso, o símbolo do criador de boxer; este deve olhar muito mais longe, e dedicar-se às vicissitudes da criação com desvelo, coragem, decisão e, sobretudo, desinteresse.
Pode ser dito que nem todos possuem o preparo e as condições do criador vocacional e entendido; neste caso, teremos uma invasão incontrolada de boxers feios que, com o tempo, fatalmente prejudicarão a categoria da raça e o verdadeiro interesse do autêntico criador, inteiramente consciente da sua função. (dentro de certas medidas, às vezes mais e às vezes menos, essas observações são válidas para todas as raças de cães em geral e, em especial, para algumas delas, mais sujeitas a variações.)
«Desse modo, escrevemos aqui a razão pela qual não podemos desejar outro tipo de boxer além do belo. Para outras raças existe o critério de que o exemplar discreto, menos exuberante, pode ter algum valor; no boxer, porém, não acreditamos que possa existir o mesmo caso, já que ele deve ser belo em sentido absoluto. Para o boxer é válido o princípio filosófico segundo o qual uma coisa não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo.»
Se é ou não e é. E o boxer ou é verdadeiramente belo ou é melhor não existir. Por esse motivo, o boxer só se afirmará se conseguirmos manter a excelência da sua produção já que, em caso contrário, está destinado a cair na vulgaridade e no irremediável desinteresse» Neste ponto da exposição, pergunto aos amantes do boxer se não vale a pena recordar estas maravilhosas palavras que, muito provavelmente, já caíram no esquecimento. Quanta actualidade possuem as previsões que o querido doutor Pier Ângelo Pesce escreveu à mais de trinta anos.